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Uma galinha, desenhada por João de Deus Ferreira, é imagem gráfica com a qual a idioteca pretende apresentar-se. Desta galinha esperam-se vários usos, entre os quais – e talvez o mais importante -, servir de separador na fita e, assim, carimbar os filmes produzidos pela idioteca, da mesma forma que é ilustrada na imagem anterior.
Talvez sem se vir a saber quem nasceu primeiro – se a ideia ou a galinha -, o João descreve da seguinte forma o processo criativo que esteve por detrás dos traços finais:
Foi com enorme motivação que aceitei o desafio do Tiago para desenvolver uma imagem gráfica para a idioteca, sentindo desde o primeiro momento uma enorme responsabilidade na conceção da mesma para a nova produtora, provavelmente já moldada pelos dois primeiros filmes que tive oportunidade de visualizar.
Desde logo me empenhei na procura e no diálogo entre as duas partes, sendo este extenso e intenso, mas fundamental. Haveriam de ser delineadas uma série de premissas que fossem capazes de confluir numa única ideia. Por outras palavras, capazes de originar o necessário caos sobre a folha branca. Após as primeiras divagações, duas angústias se apoderam: uma por cada semana que passa. No estirador, alguns fotogramas dos filmes procuravam sustentar o processo que ia decorrendo. Como que por instinto natural, a imagem de um animal ia ganhando forma e consistência. As opções, apesar de parecerem tão evidentes, remetiam – de forma esquizofrénica e ainda vaga – para os animais de „depois liga pra cá.“. Surgiu o Kiko com “a bala”, a gata Rita e um furão chamado Dora. Esta primeira angústia respondia ao desafio de uma forma aparentemente evidente, mas que ainda não deixava de ser equívoca.
Haveria que fazer uma pesquisa continua, simples e pragmática, durante o desenhar e a obrigatória digitalização dos traços que permitiram diversos testes de contraste. Durante isso, a memória atraiçoou-me varias vezes com constantes imagens de desenhos de Picasso, de Le Corbusier ou de Siza Vieira. O puzzle ia-se construindo e, num traço espontâneo, uma galinha surge. Como que se de uma família se tratasse, a segunda angústia fez com que este bicho se multiplicasse. Uma atrás, outra à frente. Há uma gorda e outra magra, a feia e cabeçuda, a pernuda e a depenada. Estando ainda para vir a que me faria suspender a procura.
No final, o bicho encerra em si a personalidade idiota que pretendia alcançar. A convicção consolida-se e o traço já era de mais certezas do que de dúvidas. Por se tratar de um desenho não computorizado, é possível estabelecer um diálogo entre o mesmo e os filmes, também eles espontâneos e convictos, sem maquilhagem ou encenação.
A galinha ainda é rural e, assim como este desenho, será sempre mais que uma caprichosa imagem gráfica, certamente carregada de algo que a melhor juventude soube guardar.
A acompanhar o texto, seguem ainda algumas das imagens que ilustram o processo:


Foi com um enorme prazer que a idioteca pôde ser apresenta no quinquagésimo programa do Plutão Anão.
O belíssimo cartaz que ilustra o programa radiofónico foi gentilmente produzido pelo COLECTIVO5, a partir da ilustração de Deus Ferreira.